Em uma passagem do Bhagavad Gita, Krishna revela a Arjuna:
“Todas as vezes, ó filho de Bhârata, que o Dharma declina e o Adharma se levanta, Eu me manifesto para a salvação dos bons e a destruição dos maus. Para o restabelecimento da Lei, Eu nasço em cada Yuga.”
Essa afirmação carrega um profundo significado iniciático: sempre que a Lei Justa (Dharma) enfraquece e seu oposto se fortalece, manifesta-se um novo Estado de Consciência, antropomorfizado, com a missão de restaurar o equilíbrio e impulsionar a evolução.
Na Gupta Vidhya — a Sabedoria Iniciática das Idades —, essas Consciências são chamadas de Avataras. O termo sânscrito “Avatara” significa, literalmente, “Descida da Lei”: Ava (descida) e Tara (Lei). Curiosamente, guarda proximidade etimológica com o hebraico Torah, que também significa Lei.
O Que é um Avatara?
Helena Petrovna Blavatsky, em A Doutrina Secreta, define o Avatara como:
“A descida da Divindade na forma ilusória de uma individualidade que, no plano físico, toma aparência objetiva porque realmente não é. Essa ilusória forma não tem passado nem futuro, pois não possui anteriores nem subsequentes nascimentos, e nela não intervém a Lei do Karma.”
O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Brasileira de Eubiose, ensinava que o Avatara é a encarnação ou manifestação do “Espírito de Verdade”, especialmente quando se trata dos Avataras Cíclicos ou Totais.
Os Avataras não são todos da mesma natureza. Existem três tipos principais: Totais (ou Integrais), Parciais e Momentâneos (ou Terrenos).
Os Três Tipos de Avataras
1. Avataras Totais (ou Integrais) São aqueles que manifestam 100% da Consciência do Logos. Por isso, são também chamados de Bijam dos Avataras (semente dos Avataras). Eles aparecem em momentos de grandes transições cíclicas, trazendo o novo Estado de Consciência que regerá o ciclo nascente.
O Avatara do ciclo de Aquário, conhecido como Maitreya Buddha, é um exemplo de Avatara Integral.
2. Avataras Parciais Dotados de 75% da Consciência do Logos, são conhecidos nas tradições orientais como Bodhisattvas. Eles encarnam para cumprir missões específicas de grande alcance espiritual.
Exemplos clássicos são Sidharta Gautama, o Buddha, há cerca de 2.500 anos no norte da Índia, e Jesus, o Cristo, há cerca de 2.000 anos na Palestina.
3. Avataras Momentâneos (ou Terrenos) Possuem até 50% da Consciência do Eterno. Podem manter a avatarização de forma permanente ou temporária. Entre eles estão os Manus, grandes legisladores e condutores de povos — como o Manu Vaivasvata (o Noé bíblico), Abraão, Moisés e Rama — e os Yokanaans, os anunciadores ou precursores das grandes manifestações avatáricas, como foi São João Batista em relação a Jesus.
Adeptos e Jivanmuktas
Além dos Avataras, existe outra categoria de seres elevados: os Adeptos, chamados na tradição hindu de Jivanmuktas (“libertados em vida”).
Diferente dos Avataras — que são descidas diretas da Lei —, o Adepto é um ser humano que, por mérito próprio, conquista a libertação do ciclo de renascimentos (a Roda de Samsara). Ele alcança a fusão de seus veículos inferiores com a Mônada (Atmã-Budhi-Manas), tornando-se um iluminado que, por compaixão, permanece atuando no mundo em favor da evolução da humanidade.
A Missão e o Sofrimento dos Avataras
Os Avataras representam a própria Lei manifestada em forma humana, em determinada época e local, seguindo o enigmático Itinerário de IO. Sua missão é dar novo impulso à evolução, semeando os estados de consciência que fundamentarão as futuras Subraças e Raças-Mães.
Geralmente, os Avataras não são reconhecidos em seu tempo. Ao contrário, geralmente são perseguidos, incompreendidos e submetidos a intensos sofrimentos. Isso ocorre tanto pela inconsciência coletiva da humanidade quanto pela oposição consciente daqueles que se beneficiam da manutenção do velho ciclo.
Sobre esse aspecto, o sábio Sri Aurobindo escreveu com grande profundidade:
“No fenômeno do Avatara há duas fases: a Consciência Divina e a personalidade instrumental na natureza. Não é para Ele mesmo que o Divino tem necessidade de sofrer ou de lutar; se Ele toma esta carga, é para suportar o fardo do mundo e dos homens. As lutas e os sofrimentos do Divino devem ser tão reais quanto os dos homens; o Divino os suporta e, ao mesmo tempo, mostra como superá-los. A manifestação do Divino no Avatara é útil ao homem porque lhe ajuda a descobrir sua própria divindade e a encontrar o meio de realizá-la.”
A Supremacia da Lei
Apesar de todo o sofrimento e da aparente vitória temporária do Adharma, a Lei (Dharma) permanece soberana. Nada nem ninguém escapa ao seu império — inclusive aqueles que, iludidos, tentam colocar-se acima dela.
Como ensina a antiga máxima: Dura Lex, Sed Lex — A Lei é dura, mas é a Lei.